contato@falandodecondominio.com.br

O limite da boa convivência em CONDOMÍNIO

Notícias

Quando comecei a administrar condomínios, ouvi de um gestor mais experiente uma máxima que, à época, me pareceu quase uma lei da física: todo problema de condomínio começa com a letra "C".

Condômino. Cachorro. Criança. Cano. chuva. Cobrança. Carro. Cigarro. Coleta de lixo. Cochicho. Conversa. Churrasco

A lista era enorme e com o tempo fui constatando um roteiro muito particular dos condomínios: o primeiro “c” era o próprio condômino, uma vez que parte dos problemas residia no vizinho, esse personagem multifacetado, que insistia em perturbar o sossego dos demais; As crianças e os cachorros sempre incomodavam pessoas mais velhas e impacientes; Carros ou melhor, as vagas de carro, que nunca eram respeitadas e viravam motivo de guerras internas; A coleta de lixo feita fora de hora, na hora errada, do jeito errado; O cigarro na sacada, no corredor, no elevador, sempre no lugar errado; O churrasco cujo cheiro e fumaça atravessa paredes e faz inimigos; A conversa alta que incomoda e a baixa ou melhor, o cochicho, aquele fofoca de corredor que rende mais do que qualquer assembleia; Cano quebrado ou vazando sempre foi um dos piores problemas e, por que não a chuva; sinônimo garantido de infiltração e de reclamação certeira. Pra não dizer o óbvio não é nem preciso muito aprofundamento da questão da cobrança que sempre é um desconsolo pra qualquer condomínio, do mais simples ao mais sofisticado.

Eu genuinamente acreditava nisso. Parecia até piada de síndico, mas também parecia impossível negar esta verdade sobre o carma da letra “C” para os condomínios. Com os anos, entendi que essa lista, por mais divertida e extensa que fosse, era só o sintoma. O problema de verdade não começa com "C", o problema começa e termina numa única palavra, e essa palavra é limite.

As pessoas têm uma dificuldade sincera, quase estrutural, de entender e respeitar limites. Limite de som. Limite de horário. Limite de tempo. Limite de quantidade. Limite de gente na piscina, na garagem, no salão de festas. No fim das contas, todo "C" daquela lista era só um limite sendo furado por alguém que jurava não estar fazendo nada de mais.

Constituições pequenas, gente educada

Há uma observação curiosa que vale trazer para essa conversa: a constituição de alguns países é relativamente pequena quando as pessoas entendem, de forma mais natural e educada, seus próprios limites. Quando o cidadão se restringe, por conta própria, a não incomodar ou perturbar o próximo, sobra menos trabalho para a lei, porque o bom senso já fez a maior parte do serviço. Em lugares mais educados do mundo, as pessoas não apertam a descarga de seus banheiros de madrugada, pra evitar o desconforto sonoro aos vizinhos. Se cada um entendesse que colocar o som alto, obriga os demais a ouvirem a sua música, que pode não ser do agrado de ninguém além de quem está dançando, metade dos regulamentos de condomínio nem precisaria existir. O limite, quando internalizado, dispensa a norma. Quando não é internalizado, a norma vira a única defesa possível.

A recomendação prática

Fica então a sugestão aos gestores e síndicos: atualizem os regulamentos internos. Busquem entender e delimitar os limites de forma clara e indicar o que pode e o que não pode ser feito, quais são os limites de pessoas, de tempo, de horários. Regulamento vago gera discussão; regulamento claro gera menos discussão e mais gestão de fato. 

Por outro lado, não deixe de concentrar esforços em promover uma nova cultura de convivência sinalizando os limites com mais frequência. Quando e se for o caso, não hesite em apresentar os limites para as pessoas mais desavisadas. Isso facilita, e muito, o dia a dia de quem administra. E, em tempos atuais, de formação de base cada vez mais escassa, isso deixou de ser um detalhe burocrático ou mera comunicação para virar necessidade. Não dá mais para presumir que o bom senso vai aparecer sozinho na reunião de condomínio.

A moral da história

O problema de fundo é sempre o mesmo. Começa com a falta de noção de que o limite do outro deveria ser o seu próprio limite. Somente uma coisa deveria ser ilimitada, o bom senso. Só que o bom senso tem uma particularidade cruel: Cada um tem o seu, do tamanho que for conveniente naquele momento específico da convivência.

No fim, administrar condomínio não é resolver briga de vaga, de barulho ou de infiltração. É, na prática, ensinar adultos feitos a entender os limites necessários para a convivência.

Marcos Ribeiro

Administrador

Acesse meu perfil

COMPARTILHE

Assine nosso newsletter

Inscreva-se para receber nossas novidades e promoções.