Crônica de uma síndica em apuros – Tênis e formigas

Crônica de uma síndica em apuros – Tênis e formigas
Crônica de uma síndica em apuros - Tênis e formigas

O dia foi agitado, descobrimos uma infestação de formigas no jardim, inspeção do Corpo de Bombeiros, e um sofá enorme que teve que ser içado para o sexto andar.

Justamente hoje eu resolvi mudar meus hábitos. Sempre usei um saltinho discreto, coisa de baixinha, e resolvi estrear um tênis novo.

– Você vai se sentir mais confortável! – Vivia repetindo Dona Beatriz.

Enfim, resolvi experimentar, mas, não sei porque, acabei pegando um modelo que ficou bem justinho nos pés. Então logo cedo o sargento Leonel da Brigada Militar do Corpo de Bombeiros chegou para inspecionar os itens de segurança, porta corta fogo, extintores, hidrantes e mais um monte de coisas. E eu acompanhando apressada pensando em todas as notas fiscais cujo pagamento ainda teria de autorizar. Quase no final ele parou próximo ao jardim da saída, para me explicar da importância dos testes nos alarmes de incêndio, e eu já sentindo um certo incômodo nos pés, mudando o peso de uma perna para outra pra ver se aliviava.

De repente senti algumas agulhadas nos pés. “Bah, será que está tão apertado assim que meus pés já estão ficando sem circulação?” – foi o que pensei, mas veio mais uma picada e mais outra, e quando eu olho pra baixo, estávamos sendo atacados por formigas. Aquelas bem miudinhas.

Agarrei na manga do uniforme do sargento, e tentei com a outra mão me livrar das pestes, batendo loucamente no tênis. Não adiantou, elas já subiam pelas minhas pernas. Sai de lá sapateando de dor e pavor.

Tive de me sentar no chão e puxar os tênis com força, estavam realmente apertados. Primeiro um voou longe, depois o outro. Não sei quem estava mais apavorado, eu, as formigas, ou o sargento.

– Jean, dá um jeito nessas formigas, pois se isso acontece com alguma criança eu vou ter que indenizar – disse para o jardineiro ao telefone quando a situação se acalmou e o sargento Leonel se foi com uma expressão que eu não sabia se era de pena ou de medo.

Foi um sacrifício colocar os tais tênis novamente, mas eu não desisto fácil.
Logo me chamaram na portaria para autorizar o pessoal da mudança dos novos condôminos a içar um sofá pela janela, pois não entrava nem no elevador e nem na escada.

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– Precisa de uma ART – tive que cobrar isso, mesmo eles me falando que tinham experiência.

Na rua o caminhão mal estacionado meio que atrapalhando o trânsito, os rapazes suados e cansados. Mas regras são regras e segurança em primeiro lugar.

E assim eu continuei, andando pra lá e pra cá, os pés já meio virados pra dentro pra ver se a dor diminuía, parecia uma tonta, mancando e sorrindo, afinal tinha de manter o ânimo de todos à minha volta, pois o estresse era latente.

Depois de um tempo, o responsável pela transportadora chegou com a ART assinada. Tudo já havia sido descarregado e subido para o apartamento, só faltava o sofá.

E no final do dia eu o vi subindo, imponente, vagarosamente, até a janela do sexto andar. Aí eu pensei “por hoje chega”, mas vieram me avisar que o sargento Leonel estava me aguardando na portaria.

– Desculpe, Dona Maria, naquela confusão eu esqueci de deixar sua via da inspeção – entregou-me meio sem jeito o papel rosa, e continuou – e aproveitei para lhe trazer uma pomada de calamina, vai ajudar com as picadas.

Eu fiquei olhando pra ele e pensando “ser síndico é mesmo coisa de louco”.

Texto original: Martinha Silva – Condomínio SC

Martinha Silva é Administradora e especialista em Gestão de Pessoas. Atua em condomínios Clube de Alto Padrão em Itajaí/SC. É escritora e colunista do Portal CondomínioSC

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